As novas regras regulatórias do comércio internacional e os impactos da legislação europeia antidesmatamento (EUDR) estiveram no centro da abertura da programação desta quinta-feira (21) no Seminário Internacional do Café, realizado em Santos (SP). O painel “Panorama Regulatório” reuniu representantes do setor cafeeiro, entidades internacionais e governo brasileiro para discutir os desafios impostos pelas novas exigências globais, além das perspectivas envolvendo tarifas comerciais, rastreabilidade e sustentabilidade.
Participaram do painel Marcos Matos, CEO do Cecafé; William Murray, representante da National Coffee Association; Kevin Lardner, da Rainforest Alliance; e Augusto Billi, representante do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Ao abordar a regulamentação europeia, Marcos Matos destacou que a EUDR representa, ao mesmo tempo, desafios e oportunidades para o setor cafeeiro brasileiro. Segundo ele, embora as exigências tragam preocupações operacionais e de adequação, o Brasil possui diferenciais competitivos importantes para atender às novas demandas internacionais.
Matos explicou que o Cecafé vem trabalhando junto à Comissão Europeia para apresentar sugestões alinhadas à realidade brasileira, especialmente diante das preocupações envolvendo rastreabilidade, comprovação de origem e adequação às novas exigências ambientais.
Tarifas dos EUA
Durante o painel, William Murray apresentou uma análise sobre os impactos da política tarifária dos Estados Unidos e o ambiente de incertezas envolvendo as relações comerciais entre Brasil e EUA.
Segundo ele, o presidente norte-americano Donald Trump sempre defendeu o uso de tarifas como instrumento estratégico de governo e tende a continuar utilizando esse mecanismo como ferramenta política.
Murray lembrou que uma primeira rodada de tarifas de 50% chegou a ser considerada ilegal pela Suprema Corte norte-americana, mas alertou que a administração do país segue buscando novos caminhos para implementar medidas tarifárias.
“Trump ama tarifas e buscará outros meios para impor essas tarifas”, afirmou.
O representante da associação norte-americana destacou, no entanto, que o café possui uma posição diferenciada dentro da economia dos Estados Unidos. Segundo ele, o produto movimenta milhões de empregos e bilhões de dólares na economia americana, além de fazer parte do consumo diário da população.
“Nós não produzimos café nos Estados Unidos. O café é extremamente importante para os americanos”, ressaltou.
Murray também reforçou que entidades norte-americanas e brasileiras seguem atuando conjuntamente em Washington para preservar a relevância estratégica do café e minimizar impactos regulatórios futuros.
EUDR avança e exige adaptação do setor
Ao falar sobre a legislação europeia, Kevin Lardner destacou que a Rainforest Alliance acompanha a construção da EUDR desde o início e apoia os objetivos centrais da regulamentação, embora reconheça os desafios envolvidos na implementação.
Segundo ele, a Comissão Europeia vem promovendo atualizações e ajustes para simplificar os processos de Due diligence exigidos dos exportadores e produtores rurais.
Lardner afirmou que a proposta busca trazer mais clareza, reduzir custos operacionais e facilitar a adequação dos diferentes elos da cadeia produtiva. Ele também destacou que novas categorias de produtos, como o café solúvel, devem ser incluídas nas exigências da legislação.
O executivo ressaltou ainda que sistemas de certificação e plataformas de rastreabilidade terão papel estratégico no processo de adaptação do setor. Segundo ele, o Brasil possui relevância central dentro das iniciativas conduzidas pela Rainforest Alliance. “Temos de nos adaptar”, afirmou.
Governo reforça busca por novos mercados
Representando o Ministério da Agricultura e Pecuária, Augusto Billi destacou que o Brasil vem intensificando ações para ampliar mercados internacionais e fortalecer a imagem da agropecuária brasileira no exterior.
Segundo ele, diante do aumento do protecionismo global, o país tem adotado uma postura mais ativa na abertura de novos mercados e no acompanhamento das regulamentações internacionais. “Precisamos aprender o jogo e jogar como ele é”, disse.
Billi citou como exemplo as negociações realizadas com o México durante o período de tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos, reforçando a estratégia brasileira de diversificação comercial.
O auditor também destacou que o Brasil trabalha para demonstrar internacionalmente os avanços da agricultura nacional em sustentabilidade e intensificação produtiva.
“O que o Brasil faz é sustentabilidade, sim, e temos buscado deixar isso claro”, ponderou.
Entre as iniciativas apresentadas está a plataforma Brasil Agro Mais Sustentável, criada para reunir informações, qualificar propriedades rurais e apoiar produtores na adequação às exigências ambientais e regulatórias.
Apesar das críticas à EUDR, especialmente em relação ao impacto sobre pequenos produtores e ao aumento da dependência de certificadoras internacionais, Billi afirmou que o setor cafeeiro brasileiro está relativamente preparado para atender às novas exigências.
Segundo ele, outros segmentos e países produtores podem enfrentar desafios ainda maiores na implementação da legislação, como carne e soja.
As discussões do painel reforçaram que o cenário regulatório internacional deve exigir cada vez mais coordenação entre setor público, exportadores, indústria e produtores rurais. Em um mercado global marcado por novas exigências ambientais, rastreabilidade e disputas comerciais, preparação e adaptação passam a ser fatores centrais para a competitividade do café brasileiro.
Temas como sustentabilidade, governança, acesso a mercados e regulamentações globais seguem no centro das discussões acompanhadas pelo Hub do Café, especialmente diante dos impactos que essas mudanças podem trazer para toda a cadeia cafeeira.
A cobertura do Seminário Internacional do Café continua no Hub do Café, com os principais temas, tendências e debates do evento.












