As transformações no consumo de café e as tendências que devem moldar o futuro do setor estiveram no centro do último painel do dia 20 de maio no Seminário Internacional do Café, realizado em Santos (SP). Com o tema “Demanda e Tendência”, representantes da indústria e do segmento de cafés especiais destacaram como a qualidade, rastreabilidade, experiência e sustentabilidade estão redefinindo a relação dos consumidores com a bebida.
O painel reuniu Pavel Cardoso, presidente da ABIC, e Vinicius Estrela, diretor executivo da BSCA, que apresentaram um panorama sobre o mercado brasileiro e internacional, além das mudanças no comportamento do consumidor.
Durante sua apresentação, Pavel Cardoso destacou que o consumo mundial de café atingiu 169,4 milhões de sacas de 60 quilos em 2025. Embora o Brasil responda por cerca de 40% da produção global, o país representa atualmente 12,6% do consumo mundial, cenário que evidencia um potencial crescimento.
Mudança na percepção e consumo de café
Segundo ele, o consumo de café no Brasil cresceu 200% desde 1989, refletindo uma mudança significativa na percepção do consumidor em relação à bebida. Cardoso explicou que os consumidores estão cada vez mais atentos à qualidade, à origem dos grãos e à segurança alimentar, deixando de considerar apenas o preço como fator decisivo de compra. “As pessoas entendem que cada café é diferente”, afirmou.
Nesse contexto, o presidente da ABIC ressaltou os pilares estratégicos da entidade para fortalecer o setor, baseados em certificação, marketing e promoção, pesquisa e inovação e desenvolvimento sustentável. O executivo destacou, ainda, o trabalho realizado pela associação por meio do projeto de certificação, que avalia desde a origem até os processos envolvidos na comercialização do café nos supermercados.
Comportamento do consumidor
Desde 1989, a ABIC realizou mais de 180 mil análises de cafés e emite anualmente milhares de selos de certificação. Entre os avanços recentes apresentados está o Protocolo Brasileiro de Avaliação de Cafés Torrados, descrito por Cardoso como um trabalho inédito no mundo. O modelo propõe uma nova abordagem para avaliação dos cafés, considerando estilos e perfis sensoriais sem estabelecer uma hierarquia de qualidade, respeitando diferentes preferências de consumo.
As tendências de mercado também mostram mudanças importantes no comportamento do consumidor, com maior valorização de atributos ligados à saúde, bem-estar, conveniência, rastreabilidade, sustentabilidade e experiências associadas ao consumo de café.
Cafés especiais
Ao abordar o segmento de cafés especiais, Vinicius Estrela destacou que o conceito da categoria também vem passando por uma transformação profunda. Segundo ele, o café especial deixou de ser definido apenas pela qualidade sensorial e passou a incorporar fatores como impacto, transparência, experiência e relacionamento com o consumidor.
“O café está entrando em uma lógica de alimento, e não apenas como ingrediente”, afirmou.
Estrela explicou que o novo consumidor tem redefinido o mercado e impulsionado a demanda da indústria por cafés especiais produzidos de maneira sustentável. Ele destacou o crescimento desse segmento em diferentes regiões do mundo, como Oriente Médio, China e sudeste asiático, impulsionado principalmente pelo público jovem e por consumidores em busca de experiências mais sofisticadas e aspiracionais.
Na China, segundo ele, o avanço da nova classe média tem acelerado a expansão do café especial, enquanto no sudeste asiático a juventude busca novas experiências ligadas à bebida. Já no Oriente Médio, o consumo de cafés especiais cresce associado a experiências premium e ao fortalecimento de cafeterias especializadas.
Transformação de mercados
Outro movimento destacado pelo executivo é a transformação dos próprios países produtores em importantes mercados consumidores. Segundo Estrela, nações como Brasil e Indonésia deixaram de ser apenas origem do café e passaram a desenvolver fortemente o consumo interno, ampliando cafeterias, torrefações e novos modelos de negócio ligados ao café especial.
Ao falar sobre o futuro do setor, Estrela destacou que educação, ciência e pesquisa terão papel estratégico na evolução do mercado cafeeiro especial. Para ele, compreender identidade sensorial, origem e comportamento do novo consumidor será fundamental para fortalecer a competitividade do café brasileiro nos próximos anos.
O executivo também reforçou que sustentabilidade, ESG, uso de dados, transformação do varejo e novos modelos de relacionamento entre produtores e consumidores serão fatores centrais para o desenvolvimento do setor. “O café especial deixou de ser nicho e passou a ser segmento”, afirmou.
Maior exigência
As discussões do painel reforçam como o mercado cafeeiro vive uma transformação estrutural impulsionada por consumidores mais exigentes, maior valorização da origem e crescimento da busca por qualidade, experiência e propósito.
Temas como inovação, sustentabilidade e relacionamento com o consumidor seguem no centro das discussões acompanhadas pelo Hub do Café, refletindo os novos caminhos da cafeicultura brasileira e mundial.
A cobertura do Seminário Internacional do Café continua no Hub do Café, com os principais temas, tendências e debates do evento.













